Se isto fosse um paraíso feito de nada
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Pt / En

A justa distância
Ana Catarina Costa
Novembro 2023

No prefácio do livro Why people photograph, Robert Adams identifica uma ideia recorrente nos seus escritos: “o esforço que todos fazemos, fotógrafos e não-fotógrafos, em afirmar a vida sem mentir a seu respeito”. Tal tarefa não se afigura tão fácil quanto possa parecer. Também John Berger reflecte sobre a falsa oposição entre real e imaginário, e sobre como a realidade, longe de ser algo estável e adquirido, deve ser continuamente procurada, mantida, resgatada. Encontrar uma coerência entre tudo o que nos rodeia – o conjunto de eventos a que habitualmente chamamos realidade – é sempre, no fundo, a construção de um imaginário.

A realidade está para além da mera acumulação de factos ou da estabilização de ideias produzidas culturalmente. Captar a realidade ou afirmar a vida através da fotografia é, assim, um exercício que se situa num território incerto entre a não-ficção e a ficção, onde qualquer passo em falso pode perturbar um ambicionado equilíbrio. O desafio de visitar, nos dias de hoje, os bairros construídos ao abrigo do SAAL* comporta essa mesma dificuldade: a de tentar escapar a um olhar datado e à carga simbólica associada ao contexto político que deu origem a este programa habitacional, a de ter abertura para olhar para a vida nos bairros, no presente, liberta de preconceitos.

Os 75 bairros SAAL construídos por todo o país resultaram do empenho e da persistência das comunidades que lá residem, das equipas técnicas que colaboraram na sua concepção e das várias pessoas e movimentos que se organizaram e lutaram pela defesa do direito a uma casa, um bairro e uma cidade dignos para todos. Mas testemunham igualmente os diferentes destinos que cada um deles teve, passados quase 50 anos desde o 25 de Abril. A heterogeneidade quanto à integridade, à vida comunitária, à conservação e ao regime de propriedade dos vários bairros deixa ler o peso e a pressão – e a resistência – a que estes, tal como os demais espaços urbanos, estão sujeitos. Reconhecer estas diversas camadas tem sido a motivação do projecto Uma Arqueologia da Utopia.

Enquanto conversamos com os moradores dos bairros, o Francisco deambula livremente, talvez mais guiado pelas emoções do que pela tentativa de fixar factos. O momento de revelação das fotografias que vão resultando dessas visitas constitui sempre uma surpresa, pois elas enquadram pequenos acontecimentos que nos haviam passado completamente despercebidos, como a mão que guardava firmemente restos de jardinagem enquanto duas vizinhas nos falavam acerca da sua amizade. A fragmentação de alguns eventos, de que é exemplo essa mão isolada do rosto – lembrando as mãos nas imagens de Gregory Halpern – permite estabelecer uma ligação aos afectos e contribuir para a multiplicação de hipóteses na construção daquele imaginário, onde cabem ideias de tempo, espera, restrição e liberdade.

A aproximação à vida de cada um destes bairros através da fotografia não decorre da observação, antes de um encontro, de uma proximidade negociada entre fotógrafo e objectos retratados, à semelhança daquilo que Berger sugere acerca do acto de pintar. Há uma partilha, uma colaboração, uma relação tensa e inquieta na descoberta, em cada momento, da distância certa que permite ir além da superfície, tornando a fotografia viva. A construção desse diálogo gera um momento outro, que simultaneamente se integra e se desprende daquele lugar. Why people photograph? Cantava José Mário Branco: “Porquê, não sei, mas sei que essa coisa é que é linda”.

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* O SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local) foi um programa habitacional implementado durante o período revolucionário português (entre Agosto de 1974 e Outubro de 1976) que procurou melhorar as condições habitacionais das classes mais pobres com base num esforço colectivo e na aspiração a uma vida mais justa para todos.

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Ensaio fotográfico integrado no projeto “uma arqueologia da utopia”, desenvolvido por Ana Catarina Costa, Francisco Ascensão, João Paupério, Maria Rebelo e Ricardo Santos.