Inutile parlarne sai
Non capiresti mai
(with Luca Bosco)
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O futuro estava no presente, onde também estaria o passado
João Paupério and Maria Rebelo (atelier local)

O estádio San Siro é um monumento. E não dizemos isto de ânimo leve: como é evidente, pela dimensão imponente das suas torres, pela majestosa coroa de treliças avermelhadas, ou pela história de sucessos que já vai longa. O San Siro é objectivamente um dos maiores estádios da Europa. Mas é um monumento, sobretudo, porque já faz parte da memória colectiva. Não só para quem aprecia o futebol, em particular, mas para quem aprecia aquilo que de melhor se pode encontrar no desporto.

O San Siro atravessa fronteiras: não só as de Itália, como as do próprio futebol. O San Siro não é só em Milão. O San Siro é também em Valongo, onde vivemos e trabalhamos, numa periferia do Porto onde os adeptos do clube local de hóquei em patins decidiram chamar San Siro ao seu pequeno pavilhão municipal, para descrever a atmosfera que se vive no seu interior. E onde até uma pequena equipa sem recursos é capaz de se agigantar para vencer às melhores equipas. Para estes, como para outros adeptos, o San Siro não é apenas um edifício, é também, e antes de mais, um estado de espírito.

O San Siro é um monumento, porque é uma obra colectiva, construída pelo tempo longo da história. Enquanto obra, o San Siro é um daqueles edifícios que ilustra na perfeição o princípio para o qual apontava Godard quando escreveu: CLÁSSICO=MODERNO. Ou quando Lawrence Weiner afirmou que “essa treta sobre gerações não faz qualquer sentido. Todas as pessoas que caminham na Terra ao mesmo tempo pertencem à mesma geração.” A resiliência do San Siro, a sua capacidade para crescer, transformar e reinventar-se ao longo da história, respondendo às exigências de centenas de milhares de adeptos de diferentes épocas, parece afirmar algo semelhante sobre a arquitectura. No fundo, o clássico e o moderno são o mesmo e é por esse preciso motivo que faz tão pouco sentido congelar o património como declará-lo obsoleto.

O San Siro é um monumento, porque ilustra em si e por si uma parte considerável da história, tanto no que diz respeito ao futebol, como à própria arquitectura. No San Siro, várias são as “gerações” e as “lições” que convivem num só espaço-tempo. Do San Siro, a nossa imaginação é capaz de saltar para os mais belos feitos dos construtivistas soviéticos ou dos neo-brutalistas britânicos, que surgiam em força ao mesmo tempo que se erigiam as suas rampas. Do San Siro podemos também aprender o significado da tríade vitruviana, que em proporções variáveis tem servido de sapata à história da arquitectura ocidental: firmitas, utilitas e venustas. Pois o San Siro permanece fi rme, permanece útil, e permanece belo. Caso contrário, não continuaria a ser um símbolo de tamanha magnitude.

Se enquanto dispositivo arquitectónico o objectivo de um estádio é permitir que um jogo de futebol se desenrole nas melhores condições, que nessas condições a melhor equipa possa vencer e que dessas vitórias os adeptos possam retirar o seu desfrute, ninguém poderá afirmar que o San Siro esteja obsoleto. Tanto o Inter com o AC Milão continuam a ser duas das equipas mais competitivas de Itália. E qualquer adepto de futebol continua a desejar um dia poder assistir a um jogo no caldeirão do San Siro. O San Siro é um monumento porque está vivo, porque nele se jogam ainda algumas das melhores partidas de futebol; e ninguém diria que se festejará em breve o centenário.

As colunas torsas, sem base, mas de fuste e capitel expressivos, evocam tanto do espírito clássico como do espírito moderno, que encontrou na gestão dos fluxos um problema fundamental para uma arquitectura do espírito novo. A agilidade com que se conduz os espectadores desde a cidade até aos seus assentos, fundamental para o bom funcionamento de um estádio, é no San Siro uma questão de composição e não de mera eficiência. As rampas transformam-se em alçado, coroadas por um friso que calha de servir como arquibancada. O caminho até ao interior prolonga-se numa verdadeira promenadearquitectural. Intensificando uma experiência-ritual indispensável para quem se desloca ao estádio: sentir a antecipação e a expectativa que crescem com a proximidade ao apito inicial, e que tão bem foram descritas pelas imagens- movimento de Yuri Ancarani. No San Siro, a performance transforma-se em perfomatividade, provando que a razão nunca excluiu o ornamento e que um estádio poderá ter tanto de silo, como de templo.

Para além da sua arquitectura, o San Siro foi símbolo de algo raro no mundo do futebol: a fraternidade e a cooperação possíveis entre dois eternos rivais. Mas como praticamente tudo neste mundo, o que de melhor existia no desporto também foi já tomado pela águas gélidas do cálculo egoísta e dos mais obscuros interesses financeiros. Mais do que um desporto, o futebol tornou-se nos últimos anos um importante sector de investimento financeiro. Em 2019, ambas as equipas apresentaram um projecto para construir um novo estádio conjunto, colocando-se de acordo quanto à obsolescência do San Siro face aos padrões de eficiência e rendimento contemporâneos, alegando ainda que a sua reabilitação teria um impacto demasiado elevado face ao retorno. Uma solução que implicava a demolição do velho San Siro, sob a insinuação absurda que este seria substituído por um estádio “verde”, “sustentável”, com “zero impacto”. Como se a demolição de um estádio histórico, com toda a energia e despojos que isso implica, não fosse em si, desde logo, um pequeno atentado ambiental e emocional. Um crime sem sentido, do qual as fotografias agora feitas pelo Luca Bosco e pelo Francisco Ascensão aparecem agora como novas pistas.

Entretanto, a condição de património protegido impediu a demolição do San Siro. Contudo, ao invés de abandonar o seu projecto absurdo, o Inter e o AC Milan preferiram aprofundá-lo, decidindo construir não um, mas dois novos estádios; e colocar um fim a décadas de mutualismo. Como já havia escrito Tamburelli, o mais vocal dos arquitectos italianos contra o abandono do San Siro, “um grande edifício como o San Siro pode sempre ser adaptado, desde que se possa também adaptar (marginalmente) os padrões com base nos quais é medido, desde que se aceite que entre as bancadas e o restaurante possam existir dezanove degraus em vez de dezassete”. Mas para que tal pudesse acontecer, seria necessário que o problema fosse, de facto, um problema de arquitectura, e não uma questão de interesses financeiros como parece cada vez mais claro ser o caso. Ou seja, seria necessário que este fosse um verdadeiro problema de arquitectura, enquanto dispositivo espacial, e não enquanto instrumento para afinar os motores da gentrificação e da especulação imobiliária.

O San Siro é o estádio mais ecológico, porque já existe. O San Siro é o estádio mais económico, porque já existe. O San Siro é o estádio mais bonito, porque nele existe já a patine de inúmeras vitórias. Por tudo isto, o San Siro é um monumento. Por tudo isso, mantê-lo vivo seria um gesto de resistência contra a destruição do futebol (como de tantos outros bens comuns da humanidade) por parte de interesses obscuros que não, de facto, são os de quem assiste ao futebol pela beleza do desporto. Tudo o resto, não passa de manobras de greenwashing do mesmo calibre das que nos querem fazer acreditar que as baterias de lítio vão salvar a humanidade.

À medida que nos aproximamos do fim deste texto, apercebemo-nos que talvez já não tenhamos tempo de assistir a um jogo no San Siro, e isso entristece-nos. O futuro do San Siro estava no presente, onde também estaria o seu passado. Agora, ao que tudo indica, o estádio em si permanecerá um monumento: mas assombrado por tudo o resto, tornar-se-á daqui em diante, sobretudo, o símbolo uma derrota.